Por Silvia Valadares / Do Blog Mulher Empreendedora
Os investidores repetem alguns padrões. Já comentei no post passado como a mudança climática alterou o rumo migratório do capital de risco para o Brasil, tornando frequente a presença de investidores em eventos. Eles estão ali, sempre à espreita, na mesa mais distante, comendo sozinhos, em rodinhas pequenas, encostados perto de plantas ornamentais. Acometidos por certa timidez e com receio do assédio, eles estão sempre olhando, acompanhando o movimento e procurando boas oportunidades de negócios.
Mas porque tão poucos negócios realmente recebem investimento? De acordo com o levantamento do Diego Gomes, da EverWrite, menos de dez investimentos se tornaram públicos este ano no Brasil. Todos sabemos que com exceção de São Paulo, cujo Carnaval praticamente se resume ao Sambódromo e ao aeroporto, o ano começa para valer depois da Festa de Momo. Mas se olharmos para o ano anterior, de acordo com o mesmo relatório colaborativo, não chegam a 70 os investimentos feitos. Isso considerando as startups brasileiras que foram para o Chile em busca de networking, aprendizado e US$ 40 mil.
Um dos meus investidores-anjo prediletos resolveu desinvestir nas empresas que vinha apostando. Inclusive duas estão na lista do Diego. O motivo? “Cansei de investir nos projetos dos outros e de dar cabeçada. Vou retomar meu próprio negócio e depois te conto para a gente colocar no BizSpark”.
Pegando carona até o aeroporto, durante o retorno do Startup Weekend Brasília, ouvi de um investidor um dos conceitos mais estarrecedores: “Procuro boas ideias e pessoas excepcionais. Tenho encontrado um ou outro. Dificilmente os dois juntos”. Eu traduzi isso como: ele quer uma pessoa com visão de negócios, capaz de ter ideias criativas para solucionar os problemas do mundo e disponíveis para serem apresentadas no seu tablet, além de um background técnico e de design para criar este protótipo.
Ele passou dois dias no evento, voltou para o Rio de Janeiro sem se impressionar muito com os projetos e está lançando um novo produto para o mercado financeiro. Muito bom, por sinal. Já fiquei com vontade de utilizar.
Do lado dos empreendedores, muitos preferem conversar com investidores de fora. Tomar um avião até o Silicon Valley se tornou lugar comum e é mais barato do que ir para Fernando de Noronha. Incluindo hospedagem, porque até onde eu saiba, não existem ofertas da ilha no AirBnB. Mais do que seed capital, eles voltam com uma bagagem de relacionamento e opinião sobre seu produto que muda para sempre as suas vidas. Mesmo que seja para pior – no caso dos que ficam com egos tão grandes que parecem andar sempre carregando um blimp.
Como eu fico no meio do caminho, por vezes intermediando essa relação e oferecendo outro tipo de apoio ou investimento, não tenho opinião formada. Investidores algumas vezes pensam que possuem a receita certa para analisar a startup e dar as melhores dicas de gestão. Muitos empreendedores de fato não possuem background em finanças e administração. Eles são forçados a tomar decisões diariamente e precisam de investimento para desenvolver o produto. A notícia triste é que entre as várias startups criadas todos os anos, menos de 10% recebem investimento. Mesmo no Silicon Valley.
Por acompanhar startups, aceleradoras, incubadoras e microempresas, desde quando isso não trazia fama, minha sugestão é ouvir. Sempre. Quanto mais exposto aos outros, sejam investidores ou pares, maior a quantidade de feedback. No entanto, vale usar uma peneira e seguir seu feeling de empreendedor. Acreditar na sua ideia, ficar atento a fluxo de caixa e tentar desde o Love Money (seu pai, sua mãe, seu irmão, melhor amigo, poupança da avó) até os recursos de subvenção econômica disponíveis no país (aka Finep). O resto é moda assim como Lean Startup, Scrum, Agile, aceleradoras, associação de startups e os novos conceitos que surgiram para repaginar os antigos.
Startup Weekend Brasília e Startup Farm
Muitos projetos novos e excelentes ideias foram divulgados por esses dois eventos. Para não me alongar, vou citar os ganhadores. Gostei muito do vencedor do Startup Weekend de Brasília, que gerou ainda 14 outros projetos. Eu Consultor é um CRM simplificado para aumentar o lucro das consultoras de vendas diretas (Natura, Avon). O vencedor do Startup Farm foi o Remote Park, um aplicativo para ajudar consumidores a encontrar vagas disponíveis em estacionamentos de grandes cidades.
A diferença entre o Startup Weekend e o Farm? O primeiro ajuda a criar startups em várias cidades do mundo e dispensa apresentações. O segundo é um programa brasileiro, criado pelo Felipe Matos, para atender a uma necessidade real dos nossos empreendedores: educação. A próxima parada do Startup Farm será Brasília. Estarei lá para prestigiar e dar mentoria. E parabéns a todos que participaram de ambos os eventos!
Silvia Valadares é jornalista. Há três anos na Microsoft, é gerente de relacionamento com a comunidade de startups e ajuda empreendedores a transformar sonhos em estratégia de mercado.

